quinta-feira, 25 de abril de 2013

África do Sul


Ainda não é o cabo.

Pensamentos profundos pensados à superfície, durante a curta viagem entre a Cidade do Cabo e o Cabo da Boa Esperança.

A história da viagem do comandante Ernest Shackleton e da sua tripulação a bordo do Endurance, é das que mais gosto de recordar,  por diferentes e contraditórias razões.
A história é conhecida de todos. O barco que saiu de Inglaterra em 1914, com 28 pessoas a bordo tinha como primeiro objectivo chegar às terras da Antártida. Esse seria apenas o primeiro passo para a realização da mais ambiciosa expedição da coroa britânica: a travessia do continente com passagem pelo Pólo Sul. O Endurance não conseguiu chegar ao fim. A poucas milhas da Antártida o barco ficou preso num banco de gelo e não se conseguiu mais libertar. Sem nada poderem fazer, os 28 homens foram assistindo à destruição completa do navio, pela compressão dos gelos. Durante seis meses viveram na placa flutuante enquanto esta seguia a direcção das correntes. Quando se aproximaram da ilha do Elefante decidiram fazer-se finalmente ao mar nos botes salva-vidas e alcança-la. Tinham pisado terra pela primeira vez desde que haviam partido de Inglaterra.
Após o colapso completo da ideia inicial, a preocupação de Shackleton virava-se agora para uma segunda e mais ambiciosa viagem: a viagem “impossível” para salvar os 28 homens que tinham sobrevivido à tragédia. Seis voluntários, onde se incluía o próprio comandante, fizeram-se então ao mar num pequeno bote com uma vela improvisada para tentarem percorrer os 800 quilómetros que os separavam da Ilha da Geórgia do Sul, aventurando-se no pior dos mares que existe no planeta. Ao fim de duas semanas de navegação chegaram finalmente a terra, mas mais uma vez tiveram azar porque aportaram no local mais distante da colónia de pescadores que existia na ilha, o que os obrigou a um último esforço para atravessarem a pé as montanhas geladas. Depois de chegarem à colónia puderam finalmente contactar o seu país e pedir a tão desejada ajuda, mas mais uma vez não tiveram sorte. Responderam-lhes que a guerra tinha começado, que todos os recursos do país tinham sido mobilizados e que não haveria nenhum barco disponível para o salvamento. A ajuda conseguiram-no por fim no Chile.
Quando regressaram à ilha do Elefante tinham passado mais de 3 meses desde que haviam partido. Os 22 companheiros continuavam lá, num estado limite das capacidades físicas e mentais, mas todos vivos.
A travessia da Antártida, aquela que poderia ter sido a grande viagem de consagração para Shackleton e reservar-lhe finalmente a fama e a glória que ele tanto procurava tinha fracassado completamente. No entanto a história da sobrevivência dos 28 homens acabou por se sobrepor ao insucesso da expedição e sem que ele desse conta, na altura, tinha acabado de transformar um dos maiores fracassos da história das explorações num dos maiores feitos de resistência das capacidades humanas.
Consta que depois desta viagem cada um dos 28 companheiros partiu para o seu canto e não mais se voltaram a encontrar. Shackleton, esse, voltaria 7 anos depois à Antártida, mas mais uma vez não chegou a pisar o continente. Morreu de ataque cardíaco ao largo da Geórgia do Sul, onde ficou sepultado até hoje.




2 comentários:

joana gama disse...

Como é bom "viajar" contigo :)

rui sousa disse...

Olá Joana. Obrigado pelo teu simpático comentário.