quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

África do Sul


Trabisang Primary School - Soweto - Joanesburgo

Mesmo utilizando a mais sofisticada tecnologia GPS não é fácil conduzir pelas estradas de um bairro  ( parece que agora tem estatuto de cidade ) de mais de dois milhões de habitantes. O Soweto (South Western Townships) foi construído nos anos 60 para albergar os negros que trabalhavam nas minas de ouro de Joanesburgo, mas acabou por ficar famoso por causa das lutas anti-apartheid que ali se desenvolveram. Entretanto o bairro cresceu e hoje não é fácil descrevê-lo. De meia dúzia de pequenas casas simples, de tijolo e telhado de zinco, semi-planeadas, passou para uma enorme malha “urbana” onde se encontra de tudo um pouco, desde a mais pobre casa feita de madeira, cartão e chapa até casas de cimento e tijolo que se poderiam perfeitamente integrar na paisagem costeira/ balnear do nosso Portugal. A populacão também foi mudando, principalmente depois da queda do apartheid. Alguns negros com dinheiro começaram a comprar casas no centro da cidade ( antiga zona de brancos ) o que fez com que os brancos se fossem embora para bairros de condominios fechados nos arredores. Este facto desvalorizou as casas do centro que se tornaram acessiveis a mais pessoas vindas dos chamados bairros pobres. No Soweto o fenómeno foi idêntico, as casas vazias foram sendo ocupadas por imigrantes que entretanto começaram a chegar, provenientes de inumeros países de África, dando origem a uma outra hierarquia na sociedade, esta menos racial e mais económica, ou talvez as duas juntas. À cultura apartheid, que já tinha  contaminado os mais pequenos recantos da sociedade, juntou-se agora também a discrimanação económica. Os poucos brancos que ficaram pobres são os únicos  que hoje vivem paredes meias com os negros. À antiga tensão racial juntou-se também agora uma tensão económica. Nas ruas a “Guerra” já não é só entre brancos e negros, mas também entre negros e negros e por vezes entre brancos e brancos. Digamos que no país existe uma grande maioria de brancos e de negros que parecem não descansar enquanto não se matarem todos uns aos outros, e depois, pelo meio, existe uma minoria silenciosa ( de brancos e negros ) que acredita verdadeiramente no país e que, no fundo, são os que vão segurando as pontas desta nova nação. Mas voltando ao Soweto, para além desta amálgama social, o bairro tem agora também para mostrar, a quem tiver interesse, uma vertente turistica. A pequena casa onde Nelson Mandela viveu nos anos 60, está lá transformada em museu. Foi ali que ele viveu, e foi ali igualmente, que se fizeram algumas reuniões históricas do ANC. Nos anos que por ali passou, constituiu familia e teve filhos que frequentaram a mais antiga escola do bairro: Trabisang Primary School, a mesma escola que é, afinal, a razão da minha vinda ao Soweto.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

África do Sul 2012



Joanesburgo - Soweto

Se há um coisa que define África, assim muito rapidamente falando, essa coisa chama-se “força da natureza”. Ali tudo parece ainda girar à volta dos ciclos da vida e da morte, da luz e das trevas e talvez por isso o nascer de um dia é sempre particularmente inspirador. Os primeiros raios de claridade despertam bem cedo a natureza adormecida e ninguém mais consegue ficar indiferente. A essa hora do dia já não é mais possível virar o corpo para o outro lado e voltar a adormecer. A luz da manhã funciona como uma espécie de vitamina que rapidamente tira todos os seres vivos do estado de sonolência em que estiveram durante horas para os atirar para o frenesim histérico da luta diária.
São cinco horas da manhã e sons ensurdecedores de aves, misturados com os dos inúmeros insectos que chocam contra o vidro da janela do quarto, empurram-me para o turbilhão do dia que já se avizinha.
Às seis da manhã já não é fácil circular pelas entradas e saídas de Joanesburgo. As estradas estão entupidas de carros. A pé circulam apenas os negros mais pobres. Esta divisão social que começou como uma divisão económica é hoje também imposta por via da chamada “segurança individual”. Andar no espaço público em Joanesburgo é meio caminho andado para ir rapidamente desta para melhor, dizem. Em alternativa a este estado de guerra permanente usa-se o carro, se possível blindado e sempre com a arma pronta no guarda-luvas, em casa sobem-se os muros, coloca-se o arame farpado electrificado, sistemas de vigilância e segurança pessoal. A cidade vive permanentemente num estado de histeria colectiva, uma enorme panela de pressão pronta a rebentar a qualquer momento. À violência do assalto responde-se com ainda maior violência, numa espiral que parece não ter fim. Quem tem dinheiro vive numa espécie de bolha, virado para si mesmo e de costas para o mundo, e quanto mais se ignora o espaço público mais degradado este vai ficando e mais difícil fica a possibilidade de as pessoas se encontrarem e de se confrontarem nas suas diferenças, nas suas qualidades e nos seus defeitos. A violência em Joanesburgo está condenada a não desaparecer enquanto não se reconquistar e não se voltar a respeitar o espaço público. Entretanto já saí da autoestrada e o carro atravessa agora o enorme bairro do Soweto. Como diria um tal de Bruce Chatwin: “What am I doing here ?”

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Índia 1995

Dois desenhos feitos em Benares, na Índia, em 1995



Uma pausa no caderno da África do Sul para um post sobre Muhammad Yunus


Há uns anos atrás dei por mim a ler os livros de Muhammad Yunus e percebi rapidamente uma coisa. Ele não devia ter ganho o prémio Nobel da Paz mas sim o Nobel da Economia. A ideia que está por trás da atribuição do prémio é legitima e pode fazer sentido ( não é possível haver paz num mundo com pobreza ), mas depois de conhecer razoavelmente bem o seu trabalho só pude concluir que a Academia Sueca teve medo de entrar pelo caminho da economia e decidiu dar-lhe um reconhecimento mas, reencaminhando-o para o país vizinho ( o Nobel da paz é atribuído pela Noruega ).
Segundo Yunus, aquilo que move o Homem na sua vida são basicamente 3 coisas: o dinheiro, o reconhecimento ( fama, glória ), o prazer pessoal ( gosto, paixão, amor, vontade, etc. ). É uma destas 3 coisas ( ou a conjugação de mais do que uma ) que normalmente nos motiva para um objectivo. Aquilo que a história da humanidade nos diz é que, basicamente, a nossa motivação foi sempre assente no dinheiro. Esse facto levou a que se instalasse e se perpetuasse durante décadas um sistema de miséria no seu país natal ( Bangladesh ). Foi para tentar resolver esse problema que ele criou o Grameen bank em 1976. A filosofia do banco era simples, oferecer crédito praticamente sem juros a pessoas pobres para poderem estruturar economicamente a sua vida, libertando-se assim de um sistema de permanente escravatura económica em que viviam. Foi estabelecido com todos os funcionários do banco um ordenado que lhes possibilitasse uma vida normal mas sem direito a aumentos no futuro. Todo o dinheiro ganho pelo banco seria aplicado em novos empréstimos. A motivação dos trabalhadores foi feitas através de condecorações ( uma espécie de estrelas que eles colocavam na camisa, como fazem os militares ). O resultado do trabalho da equipa do Grameen foi impressionante. Percebeu-se que toda a gente que recorreu a empréstimos pagou sempre tudo no tempo acordado, rapidamente uma percentagem enorme da população deixou de viver abaixo do limiar da pobreza, mas mais do que isso todos os trabalhadores do banco passaram a ser adorados, respeitados e venerados pela generalidade do país. Mais do que um sucesso social e económico, Muahmmad Yunus conseguiu um verdadeiro milagre, provar na prática que uma nova economia pode reger o mundo. Como ele próprio disse o problema não está forçosamente no capitalismo ( de quem ele é defensor ), mas na forma como este capitalismo atua sobre todos nós e sobre as nossas motivações.Quando Nelson Mandela foi libertado em 1990, referiu na altura que não era só ele que estava a ser libertado mas também todos os brancos do país, que tinham vivido igualmente acorrentados mas, ao contrário dele, a uma forma tacanha de olhar para o mundo. O que Muahmmad Yunus também nos mostrou com esta sua experiência do Grameen Bank é que não foram só o pobres que ganharam no Bangladesh, foram igualmente os ricos … por muito que lhes custe a perceber.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

África do Sul 2012




Palácio da Justiça, Church Square, em Pretória.

Se este desenho fosse feito no dia 16 de junho de 1964 seria provavelmente um desenho a preto e branco.  A preto e branco porque era assim que a sociedade estava dividida, mas também a preto e branco pela gritante e ofuscante ausência de luz no país. 16 de junho de 1964 foi o último dia do julgamento dos principais líderes do ANC ( julgamento de Rivonia), acusados de actividades subversivas contra o governo de então. Nelson Mandela assumiu, no Palácio da Justiça de Pretoria, a defesa do grupo, onde ele próprio estava incluído, mas de nada valeram os seus argumentos para evitar uma condenação a prisão perpétua. Para a história ficou a frase “ Eu cultivei o ideal de uma sociedade livre e democrática na qual todos poderiam viver em harmonia e com oportunidades iguais. Ainda espero desfrutar deste ideal. Se for necessário morro por ele.” Não foi necessário ele morrer mas foram necessários quase 30 anos de prisão para que o arco-íris voltasse a colorir o país. 

sábado, 8 de dezembro de 2012

África do Sul 2012



The Union Buildings - Pretória

No próximo dia 11 de Fevereiro vão completar-se 23 anos sobre a libertação de Nelson Mandela e sobre o início do fim do apartheid. Vinte e três anos não é nada na história de um país, mas quando esse país é a África do sul estes mesmos 23 anos já me parecem uma eternidade. Como é que a África do Sul ainda existe, ou melhor, como é que este país conseguiu existir, reinventar-se, no pós apartheid é uma pergunta que não me canso de fazer a mim mesmo. Uma vez li ( já não me lembro bem onde ) que a queda do apartheid produziu um momento raro na história, por ter coincidido com uma altura de grandes líderes políticos ( com o Nelson Mandela à cabeça ), sem os quais nada seria possível. Como contraponto dava-se o triste exemplo do fim da ex-Jugoslávia,  que um ano depois da revolução sul africana mostraria ao mundo o pior da condição humana. Se houve algum milagre em todo este processo, o milagre foi esse, conseguir reunir no mesmo sitio, no mesmo momento o melhor que o país tinha para oferecer para liderar as diferentes opiniões. Em 1994 Nelson Mandela foi eleito presidente do país e foi em Pretória no Union Buildings, a sede administrativa do governo, que ele fez o discurso de tomada de posse, para uma multidão imensa, multicolor, que encheu todos os recantos do parque.



Nada melhor, então, para comemorar o momento, do que sentar na relva, puxar do caderno, deixar o pincel seguir o seu caminho, abrir os ouvidos para o silêncio dos pássaros e deixar a imaginação fazer o resto.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Marrocos 2011




Marrakech - medina

Os dois últimos desenhos da viagem. O último dia em Marrakech. A última viagem em Marrocos. Os próximos desenhos serão de um novo caderno, de uma nova viagem.

 Marrakech - medina

domingo, 4 de novembro de 2012

Marrocos 2011



Marrakech - Praça Jama al Fna

A praça amanheceu em silêncio. Alguns trabalhadores da limpeza municipal removem os últimos vestígios do bulício da noite anterior, três carros carregam mercadorias, meia dúzia de turistas madrugadores vagueiam meio perdidos em direcção à medina. Daqui a pouco o fresco da manhã dará lugar ao calor abrasador do meio dia e aos cheiros da comida, dos fritos e do escape dos automóveis do fim do dia … e o silêncio de agora será depois varrido pelo barulho dos carros, dos pregões e das conversas. Um movimento perpétuo que todos os dias se repete e todos os dias se renova.

domingo, 28 de outubro de 2012

Marrocos 2011


Praça Jama al Fna - Marrakech

O terraço é a plateia, o chá de menta são as pipocas e a praça Jama el Fna o ecrã. O filme dura o tempo que nós quisermos. É só sentar e desfrutar.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Marrocos 2011


Essaoiura

Últimos momentos  na cidade antes do regresso a Marrakech.

Marrocos 2011


Essaouira


terça-feira, 2 de outubro de 2012

Marrocos 2012



Essaouira

Prepara-se um final de tarde com maré cheia, mar cavado, céu cinzento e o barulho ensurdecedor do vento norte. Todas as forças da natureza em uníssono, numa perfeita harmonia para a grande cerimónia da despedida.

Marrocos 2011


Essaouira

Regresso a Essaouira. O último dia para voltar a repetir os mesmo cantos e recantos, os mesmos becos, ruelas e terraços. Um dos lugares mais mágicos desta medina é a pequena rua junto à muralha portuguesa. Do lado de fora o mar sem fim, com as suas tormentas e a sua fúria, que não se cansa de por à prova a competência da engenharia militar portuguesa quinhentista, do lado de dentro a calma e a tranquilidade de mais um dia na vida da cidade.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Marrocos 2011


Safi


Subindo o emaranhado de ruas chego finalmente ao topo da medina. Safi foi conquistada pelos portugueses em 1508 e abandonada pelos mesmos em 1542. Toda a muralha da medina, o traçado das ruas e das casas são de origem portuguesa, assim como o que resta da antiga catedral e o famoso Castelo do Mar ( que não aparece no desenho). Uma das coisas que mais me fascina na história de Portugal não são propriamente as conquistas mas sobretudo os abandonos. Andar a construir cidades pelo mundo é obra, mas ter, depois, que as abandonar ainda me parece mais grandioso. Passámos cem anos a construir e depois tivemos quatrocentos anos para abandonar tudo, até voltarmos de novo para o nosso pequeno rectângulo à beira mar plantado para fazermos outra vez de conta que somos europeus. 

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Marrocos 2011


Safi - medina


Na altura em que caminho pelo subúrbio fantasma da cidade de Safi em direcção à medina ainda não sei que o autor do terrível atentado de Marrakesh que aconteceu no dia 28 de Abril de 2011, portanto quinze dias antes de ter iniciado esta viagem, é desta cidade, ele e mais os dois outros amigos cúmplices do atentado.
Adil Al-Atmani tinha um sonho que era juntar-se a grupos terroristas na Chechênia e Iraque, mas foi detido por duas vezes em Portugal, em 2004 e 2007, e recambiado para o seu país de origem. Na impossibilidade de conseguir cumprir esse objectivo, optou pela prata da casa e decidiu apontar baterias ao café Argana em Marrakesh, por ser um local frequentado maioritariamente por turistas. Dessa decisão resultaram  os 16 mortos e 21 feridos que todos ainda lembramos.
Entretanto Adil Al-Atmani foi julgado e condenado a pena de morte, juntando-se assim a mais 103 condenados que aguardam pelo cumprimento da mesma pena em prisões marroquinas.

Mas no momento em que começo a percorrer as ruelas da medina ainda nada disto se sabe e por isso a minha atenção está apenas concentrada no que os meus olhos vêem: ruínas da antiga catedral portuguesa, uma teia de ruas e casas em adiantado estado de decadência, crianças com baldes de água à cabeça, pessoas que espreitam de dentro das casas, cães e gatos abandonados a esgravatar restos de comida nos sacos de lixo espalhados pelos cantos, jovens com camisolas do Barcelona e Real Madrid, jovens com outro tipo de camisolas, grupos de jovens aparentemente sem nada para fazer, pequenas e sujas lojas de comércio local com velhos sem dentes atrás de um balcão …

E a viagem continua.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Marrocos 2011


Safi

Apanho o autocarro em Essaouira e três horas depois chego a Safi. Ruas desertas, casas em ruínas, alguma arquitectura colonial muito mal tratada. A sensação de ter chegado a uma cidade fantasma. O Marrocos urbano, profundo, longe dos roteiros turísticos, em todo o seu esplendor dá-me as boas vindas. O sol abrasador e a nortada forte que sopram na costa a esta hora do dia não convidam ninguém a estar na rua, só mesmo eu para contrariar esta pacata e estranha forma de vida. Hoje os habitantes da cidade não se vão poder queixar da falta de turistas.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Marrocos 2011


Café Jimi Hendrix, em Diabat, a casa onde terá vivido o famoso guitarrista, segundo o proprietário do próprio café.


Diabat, é uma pequena povoação, localizada entre as dunas e o mar, a escassos três quilómetros de Essaouira. Enquanto que Essaouira precisou de mais de quinhentos anos de histórias, de guerras, de tesouros e piratas para se impor no mapa, já a Diabat bastaram umas poucas semanas para virar local de culto. A responsabilidade de tal feito é atribuída ao guitarrista Jimi Hendrix que nos idos anos sessenta ali terá passado alguns dias da sua curta existência. O que terá exactamente feito ali o músico é a grande pergunta que falta responder. Para quem ficou realmente curioso não há nada, então, como visitar o local e ouvir as histórias dos seus habitantes contadas na primeira pessoa. Há de tudo para todos os gostos, inclusive histórias contadas por criancinhas de dois anos de idade, com o ranho a escorrer pelo nariz, que juram saber toda a verdade. 


quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Marrocos 2011


A cidade e o mar, o casamento perfeito … e já lá vão mais de quinhentos anos.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Marrocos 2012


Ao largo de Essaouira há rochas, ilhas, enseadas e restos das antigas fortalezas que no passado eram a guarda avançada da defesa da antiga cidade de Mogador. Há gaivotas, pequenos barcos, pescadores, mar e céu azul, cada um com o seu espaço, cada um no seu lugar, todos convergindo para o equilíbrio absoluto da composição final. É tão simples, parece tão fácil.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Marrocos 2011


Pequenos barcos que chegam ao porto de pesca, caixas de peixe que são transportadas em carros, compradores de ocasião, turistas acidentais, de tudo um pouco é possível encontrar nesta hora mágica do dia, em que se fazem os balanços de uma jornada de trabalho. Essaouira nunca se cansa de nos oferecer o melhor que tem.

Marrocos 2011


A praia de Essaouira, ao fim da tarde, a altura em que a nortada se levanta para mostrar toda a sua energia, a mesma energia que há quinhentos anos atrás trouxe as caravelas e as empurrou em direcção ao desconhecido.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Marrocos 2011


Ainda às voltas com o peixe nas docas,  uma espécie de inspiração para o jantar que se aproxima.

Marrocos 2011


O porto de pesca de Essaouira

terça-feira, 19 de junho de 2012

Marrocos 2011


Essaouira


Uma banca de peixe é a melhor natureza morta que se pode desejar (se é que se pode dizer isto desta maneira) e se essa banca for num pequeno porto de pesca, de uma pequena cidade de Marrocos, como é o caso de Essaouira, então temos a imagem perfeita. Há uma lógica e uma decência nesta forma de pesca quase artesanal destas pequenas cidades, que deveriam fazer parte da educação das sociedades. Saber de onde vêm os alimentos ajuda-nos a perceber o quão frágil é esta relação do homem com o meio envolvente. Um pequeno porto de pesca é um pequeno tesouro que nos mostra o melhor que a natureza pode ter para nos oferecer, mas ao mesmo tempo dá-nos a medida exacta do respeito que devemos ter por aquilo que comemos. As coisas valem pelo trabalho que dão e por aquilo que são.
Esta medida exacta do real valor das coisas, que deveria ser óbvia para qualquer pessoa, perde-se completamente nas grandes suprefícies, onde, por via da massificação tudo se banaliza.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Marrocos 2011



Essaouira - venda de peixe, depois da chegada dos barcos, no final do dia.

Essaouira é um dos principais portos de pesca de Marrocos mas é também, e vá lá saber-se porquê, uma cidade com especial vocação para formar artistas. Frédéric Damgaard ( dinamarquês de origem ) que visitou a cidade pela primeira vez nos anos sessenta reparou precisamente nesse facto e terá ficado de tal modo surpreendido com a veia artística dos seus habitantes que vinte anos mais tarde decidiu meter mãos à obra e abrir uma galeria. Ao longo destes últimos anos a galeria Damgaard (http://galeriedamgard.com/ ) criou uma imagem de qualidade extravazando mesmo a sua fama para os quarto cantos do mundo. Muitos foram os artistas que por lá passaram, maioritariamente artistas sem formação académica. Azeddine Sanana é um desses exemplos. Pescador desde sempre, descobriu, por via da galeria, um grande fascínio pelas artes que não sabia existir. Um dia, ao verem o seu genuíno interesse pelos quadros da galeria decidiram dar-lhe pincéis e tintas para que ele desse largas à sua veia artística. Sanana conseguiu ligar, por linhas que só ele sabe, o mundo da pesca com o mundo das artes, e o resultado foram quadros absolutamente desconcertantes. Sanana continua a viver entre esses dois mundos, e sempre que o mar não o convida a desafiá-lo, a pintura abre-lhe todas as portas para outras e diferentes viagens, por mares também e sempre dificilmente navegáveis.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Marrocos 2010



Essaouira



Começamos em Ceuta, bem de frente para a Europa e vamos por ali abaixo: Alcácer Ceguer, Tanger, Arsila, Azemour, Al JAdida ( antiga Mazagão ), Safi, Essaouira ( antiga Mogador ) e Agadir. Entre 1415 e 1769, anos que marcam a conquista de Ceuta e o abandono de Mazagão, viveu-se, guerreou-se, traficou-se e amou-se em português. Foram anos de vitórias e derrotas, de grandezas e misérias, e no fim sempre a mesma conclusão: na vida e na história tudo passa, tudo tem um tempo, tudo tem um preço.

Essaouira parece hoje, finalmente, ter chegado à idade da sabedoria, que é como quem diz, parece ter sabido envelhecer, sem ódios nem rancores nem frustrações. Hoje parece respirar-se paz, harmonia e tranquilidade …  ou será apenas mais um intervalo para o descanso dos guerreiros?

domingo, 3 de junho de 2012

Marrocos 2011



Apanho o autocarro bem cedo em Marrakech e passado duas horas e meia estou em Essaouira. Troca-se o deserto e as montanhas pelo mar, o calor seco pela húmidade salgada e as suaves brisas do fim do dia pela nortada da costa. A antiga Mogador abre-nos as portas para uma viagem pela história, através das suas muralhas, das suas ruelas e das suas fortificações, mas isso ficará para mais tarde. Agora é tempo de ouvir o barulho das ondas do mar a baterem nas pedras da muralha, do assobiar constante do vento e da "vozearia" das gaivotas. Como se costuma dizer em Marrocos, Essaouira define-se numa palavra: relax. 

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Marrocos 2011


Praça Jamaa el Fna.

Todos os autarcas de Portugal deveriam ir pelo menos uma vez na vida a Marrakech e verem com os seus próprios olhos a vida da cidade para tentarem perceber porque é que neste nosso país, e salvo raras excepções, os centros urbanos estão a definhar em lume brando a caminho do mais completo estado vegetal.
A praça Jamaa el Fna é o coração e o ponto de encontro de referência da cidade. Naquele pequeno espaço podemos tomar-lhe o pulso e tirarmos as nossas conclusões. É engraçado perceber que a praça não tem nenhum monumento de relevo, não é especialmente bonita nem tem sequer vistas naturais que possamos referir. No entanto,  à sua volta, todos os terraços e esplanadas se enchem diariamente de pessoas. O que é que torna tão atraente esta praça é a pergunta que fica?
Jamaa el Fna consegue este pequeno milagre que é, reunir num mesmo espaço diferentes actividades, sem que umas choquem com outras. Restaurantes de rua, bancas de comida, vendedores ambulantes das mais diferentes áreas, pequenos espectáculos, turistas de todas as partes do mundo, habitantes da própria cidade, transeuntes e mesmo carros, motas e bicicletas em quantidades equilibradas. É esse fervilhar, essa dinâmica, essa vida que a cidade tem que a torna irresistível para quem ali chega.
Alguém é capaz de imaginar a Praça do Comércio ou o Rossio com este ambiente depois das oito horas da noite?


quinta-feira, 17 de maio de 2012

Marrocos 2011


Marrakech

Uma das grandes imagens de marca de Marrocos, e do mundo árabe no geral, são as suas cidades. A geometria das ruas, a disposição e a arquitectura das casas são para mim um pequeno milagre da engenharia humana. Estamos de tal maneira esmagados pela imposição do automóvel no dia a dia do nosso mundo ocidental que até nos esquecemos do prazer que é podermos ter a rua só para nós, só para as pessoas. A labiríntica malha urbana das medinas árabes têm origens medievais, numa altura em que as cidades eram feitas para as pessoas e à escala das pessoas. A rua era o ponto de encontro de toda a actividade humana e a casa o refugio. O resultado disso são estas espantosas ruelas, com becos, cantos e recantos, sons e silêncios que nos deixam espaço para a vida. Dentro de uma medina vive-se a uma determinada velocidade, fora da medina vive-se dez vezes mas acelerado. Depois temos a casa, essa coisa espantosa que se chama riad, uma verdadeira criação do génio humano. Os riads têm no seu adn o essencial da chamada "vila romana, ou seja um pátio no meio para onde estão voltadas todas as divisões da casa. No pátio existe normalmente uma laranjeira ou limoeiro e um fio de água a correr para um pequeno tanque. O contacto com o exterior fica quase sempre limitado ao terraço, que é o lugar de eleição para descansarmos no final de cada dia. Os materiais usados ( a taipa e a cal ) são as outras peças importantes desta complexa e ao mesmo tempo simples engrenagem que são os riads. As paredes grossas e a disposição das divisões possibilitam uma temperatura equilibrada no interior das casas deixando-as imunes aos calores sufocantes do verão ou ao terrivel frio dos invernos.
Acordar bem cedo e abrir a porta do quarto para deixar entrar o chilrear dos pássaros, ou adormecer ao som de um fio de água a cair no tanque do pátio. Entre estas duas maldades que venha o Diabo e escolha.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Marrocos 2011



A Koutubia é ainda hoje o edifício mais alto de Marrakech, mas mais do que isso continua a ser o verdadeiro símbolo da cidade.
Ao fim da tarde, quando o pôr-do-sol faz explodir toda a gama de tons alaranjados dos edifícios, a cidade atinge o seu ponto mais alto.  O chilrear estridente dos pássaros mistura-se com a agitação das ruas e com a suave brisa que desce das montanhas para se juntarem todos numa espécie de celebração à vida. A koutubia, do alto da sua história vai observando a cidade. A noite começa a cair, a cidade começa a despertar.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Marrocos 2011


Praça Foucauld a meio caminho entre a praça Jama el Fna e a Koutubia.
Acordar cedo para aproveitar o fresco da manhã, o silêncio da medina e o chilrear dos pássaros. Quando o sol se levantar e o calor apertar a sério procuraremos uma sombra e um chá de menta e deixaremos o tempo passar lentamente até o final da tarde nos devolver de novo o melhor da cidade.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Marrocos 2011


Praça Jama el Fna, em Marrakech.


Quinze dias depois de um atentado terrorista ter morto dezasseis pessoas em Marraquech, a praça parece querer voltar a respirar a mesma calma e tranquilidade que sempre a caracterizou. Os encantadores de serpentes, os aguadeiros, os contadores de histórias, os malabaristas, os músicos e os turistas voltam de novo a ocupar um espaço que é seu por excelência, tentando reagir  à onda de medo generalizado que naturalmente daí resulta. O terrorismo é a chaga da nossa sociedade, não só porque mata, mas principalmente porque nos contamina com doses maciças de medo, e o medo é o maior inimigo da vida. As marcas do atentado ainda estavam bem visíveis na destruição parcial de um dos cafés mais emblemáticos da praça Jama el Fna, o café Argana, mas preferi concentrar a minha atenção noutros pormenores bem mais emblemáticos da vida da praça.