terça-feira, 12 de junho de 2012

Marrocos 2011



Essaouira - venda de peixe, depois da chegada dos barcos, no final do dia.

Essaouira é um dos principais portos de pesca de Marrocos mas é também, e vá lá saber-se porquê, uma cidade com especial vocação para formar artistas. Frédéric Damgaard ( dinamarquês de origem ) que visitou a cidade pela primeira vez nos anos sessenta reparou precisamente nesse facto e terá ficado de tal modo surpreendido com a veia artística dos seus habitantes que vinte anos mais tarde decidiu meter mãos à obra e abrir uma galeria. Ao longo destes últimos anos a galeria Damgaard (http://galeriedamgard.com/ ) criou uma imagem de qualidade extravazando mesmo a sua fama para os quarto cantos do mundo. Muitos foram os artistas que por lá passaram, maioritariamente artistas sem formação académica. Azeddine Sanana é um desses exemplos. Pescador desde sempre, descobriu, por via da galeria, um grande fascínio pelas artes que não sabia existir. Um dia, ao verem o seu genuíno interesse pelos quadros da galeria decidiram dar-lhe pincéis e tintas para que ele desse largas à sua veia artística. Sanana conseguiu ligar, por linhas que só ele sabe, o mundo da pesca com o mundo das artes, e o resultado foram quadros absolutamente desconcertantes. Sanana continua a viver entre esses dois mundos, e sempre que o mar não o convida a desafiá-lo, a pintura abre-lhe todas as portas para outras e diferentes viagens, por mares também e sempre dificilmente navegáveis.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Marrocos 2010



Essaouira



Começamos em Ceuta, bem de frente para a Europa e vamos por ali abaixo: Alcácer Ceguer, Tanger, Arsila, Azemour, Al JAdida ( antiga Mazagão ), Safi, Essaouira ( antiga Mogador ) e Agadir. Entre 1415 e 1769, anos que marcam a conquista de Ceuta e o abandono de Mazagão, viveu-se, guerreou-se, traficou-se e amou-se em português. Foram anos de vitórias e derrotas, de grandezas e misérias, e no fim sempre a mesma conclusão: na vida e na história tudo passa, tudo tem um tempo, tudo tem um preço.

Essaouira parece hoje, finalmente, ter chegado à idade da sabedoria, que é como quem diz, parece ter sabido envelhecer, sem ódios nem rancores nem frustrações. Hoje parece respirar-se paz, harmonia e tranquilidade …  ou será apenas mais um intervalo para o descanso dos guerreiros?

domingo, 3 de junho de 2012

Marrocos 2011



Apanho o autocarro bem cedo em Marrakech e passado duas horas e meia estou em Essaouira. Troca-se o deserto e as montanhas pelo mar, o calor seco pela húmidade salgada e as suaves brisas do fim do dia pela nortada da costa. A antiga Mogador abre-nos as portas para uma viagem pela história, através das suas muralhas, das suas ruelas e das suas fortificações, mas isso ficará para mais tarde. Agora é tempo de ouvir o barulho das ondas do mar a baterem nas pedras da muralha, do assobiar constante do vento e da "vozearia" das gaivotas. Como se costuma dizer em Marrocos, Essaouira define-se numa palavra: relax. 

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Marrocos 2011


Praça Jamaa el Fna.

Todos os autarcas de Portugal deveriam ir pelo menos uma vez na vida a Marrakech e verem com os seus próprios olhos a vida da cidade para tentarem perceber porque é que neste nosso país, e salvo raras excepções, os centros urbanos estão a definhar em lume brando a caminho do mais completo estado vegetal.
A praça Jamaa el Fna é o coração e o ponto de encontro de referência da cidade. Naquele pequeno espaço podemos tomar-lhe o pulso e tirarmos as nossas conclusões. É engraçado perceber que a praça não tem nenhum monumento de relevo, não é especialmente bonita nem tem sequer vistas naturais que possamos referir. No entanto,  à sua volta, todos os terraços e esplanadas se enchem diariamente de pessoas. O que é que torna tão atraente esta praça é a pergunta que fica?
Jamaa el Fna consegue este pequeno milagre que é, reunir num mesmo espaço diferentes actividades, sem que umas choquem com outras. Restaurantes de rua, bancas de comida, vendedores ambulantes das mais diferentes áreas, pequenos espectáculos, turistas de todas as partes do mundo, habitantes da própria cidade, transeuntes e mesmo carros, motas e bicicletas em quantidades equilibradas. É esse fervilhar, essa dinâmica, essa vida que a cidade tem que a torna irresistível para quem ali chega.
Alguém é capaz de imaginar a Praça do Comércio ou o Rossio com este ambiente depois das oito horas da noite?


quinta-feira, 17 de maio de 2012

Marrocos 2011


Marrakech

Uma das grandes imagens de marca de Marrocos, e do mundo árabe no geral, são as suas cidades. A geometria das ruas, a disposição e a arquitectura das casas são para mim um pequeno milagre da engenharia humana. Estamos de tal maneira esmagados pela imposição do automóvel no dia a dia do nosso mundo ocidental que até nos esquecemos do prazer que é podermos ter a rua só para nós, só para as pessoas. A labiríntica malha urbana das medinas árabes têm origens medievais, numa altura em que as cidades eram feitas para as pessoas e à escala das pessoas. A rua era o ponto de encontro de toda a actividade humana e a casa o refugio. O resultado disso são estas espantosas ruelas, com becos, cantos e recantos, sons e silêncios que nos deixam espaço para a vida. Dentro de uma medina vive-se a uma determinada velocidade, fora da medina vive-se dez vezes mas acelerado. Depois temos a casa, essa coisa espantosa que se chama riad, uma verdadeira criação do génio humano. Os riads têm no seu adn o essencial da chamada "vila romana, ou seja um pátio no meio para onde estão voltadas todas as divisões da casa. No pátio existe normalmente uma laranjeira ou limoeiro e um fio de água a correr para um pequeno tanque. O contacto com o exterior fica quase sempre limitado ao terraço, que é o lugar de eleição para descansarmos no final de cada dia. Os materiais usados ( a taipa e a cal ) são as outras peças importantes desta complexa e ao mesmo tempo simples engrenagem que são os riads. As paredes grossas e a disposição das divisões possibilitam uma temperatura equilibrada no interior das casas deixando-as imunes aos calores sufocantes do verão ou ao terrivel frio dos invernos.
Acordar bem cedo e abrir a porta do quarto para deixar entrar o chilrear dos pássaros, ou adormecer ao som de um fio de água a cair no tanque do pátio. Entre estas duas maldades que venha o Diabo e escolha.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Marrocos 2011



A Koutubia é ainda hoje o edifício mais alto de Marrakech, mas mais do que isso continua a ser o verdadeiro símbolo da cidade.
Ao fim da tarde, quando o pôr-do-sol faz explodir toda a gama de tons alaranjados dos edifícios, a cidade atinge o seu ponto mais alto.  O chilrear estridente dos pássaros mistura-se com a agitação das ruas e com a suave brisa que desce das montanhas para se juntarem todos numa espécie de celebração à vida. A koutubia, do alto da sua história vai observando a cidade. A noite começa a cair, a cidade começa a despertar.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Marrocos 2011


Praça Foucauld a meio caminho entre a praça Jama el Fna e a Koutubia.
Acordar cedo para aproveitar o fresco da manhã, o silêncio da medina e o chilrear dos pássaros. Quando o sol se levantar e o calor apertar a sério procuraremos uma sombra e um chá de menta e deixaremos o tempo passar lentamente até o final da tarde nos devolver de novo o melhor da cidade.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Marrocos 2011


Praça Jama el Fna, em Marrakech.


Quinze dias depois de um atentado terrorista ter morto dezasseis pessoas em Marraquech, a praça parece querer voltar a respirar a mesma calma e tranquilidade que sempre a caracterizou. Os encantadores de serpentes, os aguadeiros, os contadores de histórias, os malabaristas, os músicos e os turistas voltam de novo a ocupar um espaço que é seu por excelência, tentando reagir  à onda de medo generalizado que naturalmente daí resulta. O terrorismo é a chaga da nossa sociedade, não só porque mata, mas principalmente porque nos contamina com doses maciças de medo, e o medo é o maior inimigo da vida. As marcas do atentado ainda estavam bem visíveis na destruição parcial de um dos cafés mais emblemáticos da praça Jama el Fna, o café Argana, mas preferi concentrar a minha atenção noutros pormenores bem mais emblemáticos da vida da praça.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Marrocos 2011


Hotel La Mamounia, em Marrakech.


Este desenho do famoso hotel La Mamounia, em Marrakech, dá início a este novo caderno. Em 2011 voltei a Marrocos, um regresso que começa já a ser um hábito mas sobretudo um tónico para a alma. Tão perto de Portugal e tão diferente. Bastam duas horas e meia de viagem para que de repente quase tudo mude. Chegar a Marrakech por volta das 15 horas é perfeito e dá-nos o tempo suficiente para sentirmos os primeiros bafos de calor vindos do deserto, para nos dirigirmos ao centro da cidade e nos instalarmos confortavelmente num dos muitos riads que existem à nossa disposição dentro da medina. Há ainda tempo suficiente para nos dirigirmos depois à praça Jama el Fna e tranquilamente, enquanto a hora do jantar não chega, disfrutar de um tradicional chá de menta. Aos poucos a praça começa a fervilhar de gente e de atividade. O cheiro da comida mistura-se com o som dos músicos, o barulho das motas, o pregão dos vendedores de água, e as vozes dos encantadores de serpentes e dos contadores de histórias. De repente tudo na praça é vida, como se numa fracção de segundo acordasse da letargia e indolência provocada pelo calor abrasador do dia. Paul Bowles dizia que a cidade de Marrakech é sobretudo a sua praça. “Tirem a praça à cidade e não sobra nada”.  Eu acrescentaria: é a praça e mais o La Mamounia. O hotel trouxe à cidade a possibilidade de se misturarem no mesmo sitio dois mundos diametralmente opostos.  Uma mistura que passou, no fundo, a ser a imagem de marca da cidade. Desde 1923, data da sua construção, que o hotel não mais parou de receber pessoas dos quatro cantos do mundos, sendo talvez Winston Churchill aquele que mais lhe está associado. Recentemente encerrou para obras, reabrindo em 2009, três anos depois, com um novo conceito de luxo mas com o mesmo glamour de sempre. Visitar hoje o hotel não é fácil mas é possível, mediante prévia marcação e vale mesmo a pena porque é uma viagem no tempo e na história.
Mas entretanto a noite cai, e podemos então começar a pensar no jantar: umas azeitonas, polpa de tomate, azeite e orégãos com pão, como entrada, a seguir uma salada mediterrânica e uma tagine de borrego, depois é deixar o tempo passar, só isso. É tão simples não é?



domingo, 1 de abril de 2012

Istambul 2011



Estação de comboios de Istambul


Quase todas as cidades têm os seus mitos e as suas histórias. Alguns flutuam no ar e respiram-se logo à saída do avião, outros estão presentes em coisas tão simples como uma pedra ou uma árvore. A estação de comboios de Istambul assim como o clássico hotel Pera, não são propriamente coisas simples e discretas na sua volumetria, antes pelo contrário, estão certamente na categoria dos grandes monumentos da cidade, mas acredito que já quase ninguém lhes dê a importância que tiveram num passado recente. Estes dois edifícios esbatem-se hoje um pouco na paisagem acelerada da cidade, fazendo um esforço para exibir bem alto os galões da sua história. É impossível dissociá-los apesar da relativa distância geográfica que existe entre os dois. A estação foi construída para ser o destino final do mítico Expresso do Oriente, na Europa, e o Hotel Pera Palace o local onde se alojavam os seus passageiros mais abastados, numa altura em que chegar a Istambul, via Paris, era entendido verdadeiramente como uma “viagem” e não uma passagem, como hoje, onde nos atropelamos a correr nos aeroportos com os olhos sempre postos num ecran, de um qualquer computador, de um ipod, ipad, iphone. O tempo de uma viagem era também um tempo para se viver, e quando a vida não cabia na própria realidade inventavam-se “outras vidas” e “outras realidades”.
Sobre este mítico comboio existem seguramente uma boa mão cheia de livros, filmes e documentários, que fizeram dele um dos comboios mais famosos do mundo, mas bastaria apenas um livro para o imortalizar. O “Crime no Expresso do Oriente”, que Agatha Christie terá escrito no alegado quarto 411 do Pera Palace Hotel ( será verdade?) foi mais um dos seus inúmeros livros que na altura a ajudaram a criar um fenómeno literário à escala global ( com mais de dois mil milhões vendidos na sua totalidade até hoje ). Sem ele a escritora não ficaria nem mais pobre nem menos famosa, mas seguramente que nem a estação nem o hotel seriam hoje recordados da mesma forma se este livro não tivesse sido escrito.

Estes dois desenhos que fecham o caderno de Istambul devem particularmente a sua existência ao facto de, tanto a estação como o Pera Palace Hotel se terem tornado verdadeiras lendas vivas, quanto mais não seja no meu imaginário. Fica assim registada esta minha divida para com o livro e a sua autora no último post deste caderno.

No próximo caderno regresso a Marrocos, um regresso sempre desejado e festejado.

Istambul 2011


Pera Palace Hotel

quarta-feira, 28 de março de 2012

Istambul 2011


Cenas quotidianas da vida de uma cidade.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Istambul 2011

Palácio de Dolmabahçe


A história dos povos, assim como a história das pessoas é sempre feita de encontros e desencontros e as ideias feitas são quase sempre o maior inimigo da convivência e da aprendizagem. Deve ser essa a razão que nos leva a utilizarmos os raros momentos em que nos cruzamos com os outros, para reforçar uma ideia que já tínhamos e nunca para reaprendermos a ver. Nós tiramos sempre da história aquilo que nos convém, que é como quem diz, só vemos aquilo que nos interessa. A histórica relação entre o Ocidente e o Oriente é bem o exemplo. De um lado e do outro ficaram marcas desses encontros, mas nunca houve a tentação de perceber o outro lado. Perceber e concordar com o "outro lado" é sentido como um atestado de inferioridade passado a "este lado". Fatema Mernissi, uma das pensadoras mais destacadas do mundo islâmico dá-nos a medida exacta destes crónicos desencontros da história no seu brilhante livro “ O Harém e o Ocidente “. Estaremos nós assim tão seguros da nossa “liberdade” que não conseguimos ver mais nada para além das nossas “fronteiras”? Será o nosso sistema assim tão exemplar que não nos deixa espaço para aprendermos com os outros e vice-versa? Usando o livro “ Mil e Uma Noites “ Fatema  faz uma viagem ao encontro do “desencontro”. Com este trabalho Fatema Mernissi denuncia uma sucessão de equívocos e mal entendidos, tanto Ocidental como Oriental, que limita a nossa imaginação e a comunicação entre culturas tão diferentes. O que é que tudo isto tem a ver com o desenho do Palácio de Dolmabahçe, construído em 1842 no melhor estilo europeu da época, em pleno Califado do império turco/ otomano, é a pergunta que fica? 
Nada melhor, então, do que uma visita ao palácio para tentar encontrar uma resposta.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Alentejo e Diário Gráfico

O caderno de Istambul está a aproximar-se do fim, mas enquanto esse momento não chega faço aqui uma pequena interrupção no caderno para anunciar que os "Percursos de Roda Pé" estão de volta, para quem gosta de um dia bem passado no campo. 
http://adcmoura.pt/html/percursos_de_roda_pe.html
As inscrições já estão abertas.

No dia 14 de Abril vai haver um dedicado ao desenho e ao diário gráfico e eu vou lá estar.
http://adcmoura.pt/html/percurso_3.html

domingo, 11 de março de 2012

Istambul 2011



Um farol e um símbolo de Istambul e do Bósforo. Torre de Leandro ou torre da Donzela, ( Kiz Kulesi ), o farol de todas as lendas e de todos os mistérios a funcionar hoje como bar, restaurante e discoteca.

Istambul 2011


A marginal -  Kennedy Caddesi - com o seu farol. 



segunda-feira, 5 de março de 2012

Istambul 2011


Perto da Ponte de Galata, junto ao cais onde se encontram os barcos que cruzam o Bósforo, a tentar fugir da multidão que chega e parte num frenesim constante e da atmosfera gordurosa resultante da mistura do monóxido de carbono dos barcos com o cheiro do peixe frito da rua.

Istambul 2011


No bairro de Besiktas, o mesmo que dá nome ao famoso clube turco onde jogam uma mão cheia de jogadores ( e treinador ) portugueses, recorrentemente com ordenados em atraso, está a mesquita de Ortakóy, sobranceira ao Bósforo, que há mais de duzentos anos vê passar os navios do canal.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Istambul 2011


A pequena rua do eléctrico que sobe a colina do Corno Dourado em direcção à Haghia Sophia.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Istambul 2011


 O que resta da antiga Coluna de Constantino.

O tempo é implacável. Ninguém lhe resiste, ninguém lhe sobrevive. A Coluna de Constantino desafia-nos a fazer uma viagem, no tempo, pelos meandros da História. Aquela que foi a capital do grandioso império romano do oriente não é mais, hoje em dia, do que um amontoado disperso de pedras. Constantinópla desapareceu, sucumbiu da pior maneira ( como parecem sucumbir todos os impérios ); pela guerra, pela ambição, pela traição, pela cobiça e pelo cansaço. A história é sempre feita de ciclos, como as estações do ano. Às Primaveras de Praga e às Primaveras àrabes sucedem-se os Verões escaldantes da acção política e ideológica, que depois dão lugar aos Outonos do nosso descontentamento, até chegar o golpe fatal do general Inverno. Depois da terra queimada as flores voltam outra vez a nascer e com elas a esperança e a ilusão, sempre a ilusão de que o futuro será desta vez brilhante e promissor.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Istambul 2011


Universidade de Istambul - Praça Beyazit

Depois de deixar para trás a teia de ruas e ruelas do Grande Bazar chego finalmente ao topo da colina, o lugar onde se encontram as raízes mais profundas da velhinha Istambul ou, melhor dizendo, da antiga Constantinopla. No local onde antigamente ficava o forum romano encontra-se hoje a Universidade de Istambul, um lugar frequentado por mais de quatro mil alunos que chegam de todo o país para adquirirem e partilharem saberes. Jovens com roupas ocidentais misturam-se com jovens com roupas tradicionais do Islão num mosaico que mais do que mostrar as diferenças socio-econónimcas é bem mais revelador da visão filosófica, ideológica ou religiosa que cada um tem da própria vida. À primeira vista parece não haver nenhuma predominância de uma forma de vestir em relação a outra, isto é, há uma metade que parece afirmar-se como mais conservadora e outra metade como menos conservadora. Qual das duas metades sente mais o estigma social, numa sociedade/ cidade, também ela algo dividida? Será apenas aparente a tranquilidade que nos é transmitida ou pelo contrário existe um enorme panelão que fervilha lá bem nas profundezas do lugar, pronto a rebentar a qualquer momento?

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Istambul 2011


Grande Bazar

Calças, camisas, cuecas, peúgas, burkas, tudo para homem, senhora e criança, ao preço do "leve 5 pague 1". Túneis e mais túneis com lojas e mais lojas, cheias de tralha e mais tralha que daria para abastecer toda a população do país, mostram-se ao turista ocidental e ao local. Cartazes pendurados com o nome do clube de futebol da cidade, Fenerbahce, o campeão da Turquia, misturam-se com os cartazes do grande pai da nação Kemal Ataturk. Eis-me, finalmente,  dentro de um dos maiores cartazes turísticos da cidade … com uma enorme vontade de sair dali para fora.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Istambul 2011


A caminho do "Olho do Furacão" e a pensar como eu que eu me vou ver livre disto.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

istambul 2011


Casas e pessoas. Sempre um bom motivo e um óptimo pretexto para um desenho.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Istambul 2011



As catedrais do consumo são iguais em todo o lado. Com mais ou menos luzes, mais ou menos lojas, mais ou menos produtos para venda, serão sempre lugares sagrados para os militantes e aficcionados das compras. Este Grande Bazar de Istambul também não foge à regra. Dizem que é o maior espaço comercial coberto do mundo, com mais de quatro mil lojas, cerca de 58 ruas cobertas e aproximadamente 250 mil visitantes por dia. A verdade é que há já muito tempo que o Grande Bazar extravasou os seus próprios limites da construção original ( do século XV ) e se espraiou pela colina abaixo, praticamente até quase tocar na "velha" Mesquita Nova. É meio difícil dizer, hoje em dia, onde começa e acaba este pequeno monstro tentacular. Quando dei por mim já estava mergulhado na enorme corrente de massa humana. Nesses momentos só há uma coisa a fazer: deixar que nos levem por ali acima até conseguirmos de novo pôr a cabeça de fora para poder voltar respirar. 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Istambul 2011


Deixei para trás a ponte de Galáta e a Mesquita Nova ( ao fundo ) e já começo a sentir a presença próxima do Grande Bazar.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Istambul 2011


Do lado direito, a parte final da ponte de Gálata, que me transporta de novo até ao Corno de Ouro, bem perto da Mesquita Nova, em primeiro plano aqui no desenho. Por trás da mesquita iniciarei a minha subida em direcção ao conhecido Grande Bazar até chegar de novo ao topo da colina.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Istambul 2011


A ponte e a torre de Gálata.

Deixei o bairro de beyoglu e a sua emblemática torre para trás, atravessei a ponte de Gálata e regressei ao Corno Dourado para me perder no famoso Grande Bazar, o verdadeiro paraíso da quinquilharia e do produto " made in China ".

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Istambul 2011

Torre de Gálata

Entre a rua Istiklal e a ponte de Gálata há toda uma série de pequenas ruas e praças muito conhecidas pelos seus cafés e lojas alternativas para todos os gostos. Mas a grande atracção do bairro é mesmo a famosa torre, construída pelos genoveses, que durante muito anos fizeram daquela parte da cidade a sua zona residencial. Se quisermos perder um bom par de minutos nas filas de espera, que normalmente dão várias voltas à própria torre, para subirmos ao topo do edifício, temos garantidas grandes vistas do Bósforo e do casario, a perder de vista. É o que dizem. Eu não posso confirmar. Não subi.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Istambul 2011


Istambul não é só uma típica cidade de fronteira, com todas as suas misturas culturais, étnicas e religiosas, é também uma cidade de estranhos paradoxos. Aquele que salta mais à vista é o divórcio que parece existir com o mar, principalmente para uma cidade que nasceu e cresceu durante tantos anos de mãos dadas com o seu porto. Tirando as zonas marginais, que muitas vezes estão entupidas com o trânsito caótico horas a fio, não é fácil encontrar pontos ou miradouros que nos aproximem daquele que para mim é o verdadeiro coração da cidade: o Bósforo. O exemplo máximo disto que acabo de dizer é a própria rua Istiklal, que apesar de atravessar toda a aresta da colina de Beyoglu, que corre paralela ao estreito, não nos possibilita um único contacto com o ele ( ou então tem os miradouros tão escondidos que me passaram completamente ao lado ). Será?

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Istambul 2011


A rua Istiklal sai directamente da praça Taksim e atravessa todo o bairro de Beyoglu. Aquilo que no passado foi a zona residencial de excelência dos estrangeiros ( embaixadores, comerciantes ) é hoje a rua de referência do comércio, dos bares e discotecas, num permanente fervilhar de gente. Por entre os prédios devolutos, lojas de luxo, vendedores ambulantes, pessoas ricas e pobres, pessoas mais ou menos ocidentalizadas, podemos ainda encontrar o verdadeiro ex-libris do bairro: o seu tradicional eléctrico.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Istambul 2011

Ponte de Gálata, com a Mesquita Nova ao fundo.


A nossa identidade, a Europa, o mundo e ... Istambul.

A questão da identidade é o grande quebra-cabeças das nossas vidas. Quem somos, a quem pertencemos  e finalmente que importância isso tem para o caminho que queremos fazer, ou mais do que isso, de que forma essa identidade nos condiciona na escolha do nosso caminho. Ao longo da história o sucesso dos povos e dos países assentou sempre numa equação tão simples de colocar, como difícil de resolver e que é: o que é que nos une? E o que é que estamos dispostos a fazer em prol dessa união? Resolvendo esta equação, a partir daqui, somos indestrutíveis, mesmo se perdemos ( a vida ). Quando Churchill declarou a guerra à Alemanha, fê-lo em condições em que muito poucos acreditariam poder ter sucesso. No discurso que fez à nação prometeu a única coisa que poderia prometer e a última que todos nós desejaríamos ouvir: sangue, suor e lágrimas. Ninguém no mundo acreditou na loucura dos " Diabos Vermelhos" e a Inglaterra foi deixada sozinha e desarmada diante  do colosso alemão. O próprio Hitler se ria, dizendo que, quando os seus aviões bombardeassem a "ilha" as pessoas e a oposição iriam voltar-se contra o seu líder e o país cairia num segundo aos pés da Alemanha. Enganou-se. Aquilo que não nos mata torna-nos mais fortes, é assim o ditado e é assim também na vida real. Numa altura em que tudo parecia estar perdido Churchill conseguiu levantar toda uma nação, unindo-a. "Ou vivemos como queremos ou morremos". Tão simples e tão difícil. Vem isto a propósito dos queridos tempos que correm, da velhinha Europa, das nações, do mundo e de …  Istambul, imaginem. Istambul é a típica cidade que não é carne nem é peixe, tem um pé dentro e outro fora, dá uma no cravo e outra na ferradura e por aí fora. E eu tenho uma especial atracção por estes locais de fronteira, onde nunca se sabe muito bem onde uma coisa começa e acaba. Qual é a identidade de Istambul? A que família verdadeiramente pertence? O que é que faz  as pessoas que lá habitam, correrem todas na mesma direcção ( se é que correm)?


O que é que nos une hoje na Europa, ou mais do que isso, o que é que nos une hoje no mundo? (A pergunta tem mesmo que ser feita à escala global)
Eis a pergunta dos d€z milhões.







sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O Segredo da Pedra


Um pequeno intervalo no caderno de Istambul para dar conta do meu novo livro, acabado de sair da gráfica e a caminho das livrarias.

O Segredo da Pedra

"O Mestre Hildo e o Pedrito vão viajar até um lugar mágico onde apenas habitam animais.
Aí vão encontrar desenhos e misteriosos monumentos em pedra, muito, muito antigos.
Qual a origem e o significado de todos estas descobertas é a pergunta que os nossos dois amigos vão tentar responder no fim de um dia cheio de aventura. Será que vão conseguir?"

Espero que gostem.

http://www.minutosdeleitura.pt/

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Istambul 2011

A poucos metros de distância da Haghia Sophia está a Mesquita Azul.

Istambul 2011

Mesquita Azul. Interior.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Istambul 2011

 Fonte Ahmed III

O império Otomano, como qualquer bom império que se preze, que governou uma parte importante da bacia do mediterrâneo durante quase quinhentos anos, não deixou só obra para inglês ver, também tratou de deixar GRANDES obras públicas de … pequena dimensão. As inúmeras fontes construídas por toda a cidade, com o objectivo de facilitar às pessoas o acesso ao mais precioso dos bens, a água, são apenas um pequeno exemplo. Hoje restam apenas alguns exemplares. Esta fonte, ahmed III, bem ao lado da Haghia Sophia, sobrevive agora adaptada às novas funções de carácter mais … turístico, digamos assim. Portanto, mudam-se os tempos, mudam-se as funções, todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades. É mais ou menos assim não é?

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Istambul 2011



Haghia Sophia

A forma como olhamos para a história, como a valorizamos a um ponto quase obsessivo ou patológico diz muito do que foi o percurso das civilizações ao longo dos anos. Construir foi sempre uma forma de deixar marca para a posterioridade, uma espécie de pegada de dinossauro fossilizada que no futuro pudesse ser objecto de estudo e veneração, e entendida como exemplo máximo das virtudes humanas. Continuamos a não saber de onde vimos mas saber que passámos por “ali” dá-nos uma espécie de conforto e sentido para continuarmos a fazer hoje, o mesmo que fizemos no passado (mas sempre em maior escala se possível). Deve ser por isso que não há político que se preze, seja ele ministro, rei, imperador ou Alberto João Jardim que não tenha a tentação de deixar o seu chichi a marcar o território para que a posterioridade possa saber, agradecer e valorizar. Pensar em pequeno e construir em grande é a nossa marca genética, está no nosso adn ou dito de forma mais directa, está-nos no sangue. Parece não haver nada mais capaz de nos deslumbrar que os feitos dos chamados “conquistadores do inútil”. E a história está cheia destes feitos e nós estamos sempre na linha da frente para ficarmos com ar de Boi a olhar para o palácio.
Depois de subir calmamente a Alemdar cadessi, e continuarmos por uma pequena rua calcetada junto às muralhas do Topkapi Palace com casas tradicionais de madeiras, chegamos finalmente à Bab-I Humayun cadessi e à imponente, Haghia Sophia, edifício construído no século VI com uma impressionante abóbada de cerca de 30 metros de diâmetro e 55 metros de altura.

Chegou finalmente o momento de deixarmos as considerações de lado e observarmos … simplesmente.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Istambul 2011

Subindo a rua do tram ( Alemdar cadessi )a caminho da Haghia Sophia.
O Corno Dourado, ou Corno do Ouro é talvez o melhor lugar para iniciarmos a nossa caminhada por Istambul. É onde repousam as mais antigas memórias da cidade, memórias clássicas com raízes em Roma, na Grécia antiga e na gloriosa e renascentista Turquia imperial dos califas, mas também onde se descobrem becos, terraços e miradouros que nos aproximam daquele que é para mim o verdadeiro do coração da cidade: o Bósforo.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Istambul 2011

Ebussuut Cadessi ( nome da rua ), caminhando em direcção à Haghia Sophia.
Gosto de pensar que cada viagem tem sempre duas componentes, uma imaginária e outra real. A imaginária parte sempre com algum (no meu caso muito) tempo de avanço sobre a real e vai construindo imagens e sensações, sobre os lugares para onde nos dirigimos, a partir de informações já existentes na nossa cabeça. Quando realmente partimos já estamos condicionados na nossa avaliação pelas chamadas “ideias feitas”. O encontro destas duas “realidades” (a imaginaria e a real) nem sempre é pacífica, tenho que admitir. Foi ou pouco isso que eu senti durante a viagem, no passado mês de Junho, à cidade de Istambul, uma luta permanente entre o que esperava encontrar e aquilo que encontrei. É a esta cidade, que fica bem no cruzamento do tempo e da história, que dediquei inteiramente este novo caderno.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Solar dos Pascoaes


A poucos quilómetros de Amarante, na localidade de Gatão, existe uma casa. Dizem que foi habitada por génios, loucos e poetas, que durante gerações iluminou as trevas das serranias do Marão, que espantou os demónios e aproximou os anjos. Dizem. Este Verão também por lá andei. Já lá tinha estado antes de chegar e ainda lá fiquei depois de partir. Acho mesmo que ainda por lá vou ficar um bom par de anos, ou se calhar nunca mais de lá sairei. Há sítios assim, sítios que esperam uma vida inteira por nós e que depois de nos cruzarmos nada mais será como dantes.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Marrocos 2011


Uma rua perto da praça de Jamal el Fna em Marrakech.

Agosto é sempre um mês de poucos posts. Enquanto não arranca o novo caderno deixo aqui um desenho da minha viagem por Marrocos em Maio passado, que começou no papel e acabou no digital.

domingo, 31 de julho de 2011

Suíça 2010


A cidade Velha, Genebra.

A viagem a Israel incluiu uma escala em Genebra, na Suíça, que teria sido de um só dia não fosse eu ter perdido o avião para Tel Aviv. As causas do sucedido estão ainda longe de estarem completamente apuradas. Parece que o viandante ( isto é, eu ) se terá apresentado a tempo e horas, com check in devidamente feito no aeroporto da cidade. Terá sido a clássica distracção provocada pela presença em massa de um público feminino com atributos estéticos acima do normal a causa da tragédia? Uma pergunta difícil de responder e que provavelmente ficará sem resposta durante muitos e bons anos. A verdade é que acabei por ficar 3 simpáticos dias a gozar um inverno de céu azul e temperaturas de zero graus que me aguçou ainda mais o apetite para os trinta graus que me ofereceu a Terra Santa. Está escrito que todos os mortais deveriam pelo menos uma vez na vida perder um avião. Eu já tenho a minha conta. E à conta disso acrescentei também mais quatro desenhos à viagem.  

Suíça 2010


Teatro Municipal de Genebra.

Suíça 2010


O Quai de Mont-Blanc, a clássica marginal da cidade de Genebra.

Suiça 2010


O velhinho Lago Leman e a menina dos seus olhos, Genebra.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Israel 2010



O último desenho do caderno de Jerusalém ... e neste caso os últimos são mesmo os primeiros.


Brevemente um novo caderno com novos desenhos.

Israel 2010

Ponte desenhada por Santiago Calatrava, em Jerusalém.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Israel 2010

"Jerusalem International YMCA", um ícone arquitectónico da cidade, desenhado por William Frederick Lamb, um velho conhecido de outras paragens, mais propriamente de Nova Yorque, por ter sido um dos principais responsáveis pelo desenho do famoso Empire State Building.

O caderno está quase a chegar ao fim.





ISRAEL 2010

A igreja de Santa Maria do Monte Sião.
Mais um lugar de culto do universo judaico/ cristão.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Israel 2010


Hotel do Rei David, Jerusalém,Israel.


Até ao século XVIII o turismo caracterizou-se fundamentalmente por viagens individuais por conta e risco, de carácter religioso, comercial, de saúde, de estudo ou político. No século XIX, com o desenvolvimento dos transportes e o crescimento de famílias com dinheiro, aparece um novo tipo de viagem: o turismo cultural ou de lazer. O inglês Thomas Cook foi o primeiro a perceber este potencial e a desenvolver o conceito de viagem organizada. Para este novo turismo e os principais lugares históricos da bacia do Mediterrâneo foi apenas o início de uma grande amizade. Juntamente com os transportes começou igualmente a desenvolver-se toda uma indústria ligada à viagem: roupas, malas, acessórios, etc. A Louis Vuitton, é hoje em dia, talvez o melhor exemplo de uma marca que facilmente associamos a um determinado modo de viajar, um imaginário que a empresa tratou de preservar e até cultivar e que a literatura e o cinema tão bem souberam explorar. Mas a verdadeira referência dessas viagens continua ainda espalhada pelos locais históricos do chamado próximo, médio e extremo oriente, através dos clássicos hotéis de charme que sobreviveram ao tempo e a este verdadeiro vendaval que é o turismo fast food. Exemplos como o La Mamounia de Marrakech, para onde Churchil fugia para pintar em plena segunda guerra mundial, como o Old Cataract hotel, em Assuan, no Egipto, onde dizem que Agatha Christie terá escrito o “ Morte no Nilo “, como o Hotel Pera Palace em Istambul, ou o clássico Taj Mahal hotel, de BomBaim, entre outros, são apenas alguns lugares que de uma determinada maneira nos fazem viajar no tempo. Tudo isto, finalmente, para chegar a Jerusalém que também não podia não ter o seu clássico hotel de charme, neste caso o hotel do rei David, que tal como os outros, também visitei, embora nunca na condição de hóspede pelas razões que será fácil perceber.

Marrocos 2011

Hotel La Mamounia, em Marrakech, Marrocos.